O dólar fechou acima de R$ 5,80 pela terceira semana consecutiva em julho, alimentando um debate que divide economistas, gestores e analistas de mercado. De um lado, os que atribuem a desvalorização do real a fatores externos — dólar forte globalmente, aversão ao risco em mercados emergentes. Do outro, os que apontam para problemas estruturais na política fiscal brasileira.
A verdade, como costuma acontecer em economia, é que os dois lados têm razão — mas em proporções que ninguém consegue medir com precisão. O que podemos fazer é apresentar os argumentos com honestidade.
Perspectiva 1: o problema é externo
A tese do dólar global
O índice DXY — que mede o dólar contra uma cesta de moedas desenvolvidas — subiu 4,2% no primeiro semestre de 2025. Moedas de outros emergentes também se desvalorizaram: o peso mexicano caiu 6%, o rand sul-africano perdeu 5,8%. O real, com queda de 7,3%, até se saiu relativamente pior, mas o movimento não é isolado. O Federal Reserve manteve os juros elevados por mais tempo do que o mercado esperava, e isso forçou uma realocação global de capital em direção ao dólar.
Perspectiva 2: o problema é interno
A tese do risco fiscal
O déficit primário do governo federal acumulou R$ 68 bilhões nos cinco primeiros meses de 2025, acima do projetado. O mercado de câmbio é sensível a percepções de risco fiscal porque um governo que gasta mais do que arrecada precisa se financiar — e parte desse financiamento vem de investidores estrangeiros que exigem prêmio de risco. Quando esse prêmio sobe, o real cai. Analistas do mercado financeiro apontam que o diferencial entre o câmbio atual e o câmbio de equilíbrio estimado pelos modelos de paridade de poder de compra está acima de 15%.
Perspectiva 3: a estrutura é o problema
A tese da dependência de commodities
O Brasil exporta principalmente commodities — soja, minério de ferro, petróleo. Quando os preços dessas commodities caem, a entrada de dólares diminui e o real perde suporte. Em 2025, o preço do minério de ferro recuou 18% em relação ao pico de 2024, pressionado pela desaceleração da economia chinesa. Essa correlação estrutural entre o real e os preços de commodities é frequentemente ignorada no debate público, que tende a personalizar o câmbio em torno de decisões políticas.
O que o investidor faz com isso
Para quem investe no Brasil, o câmbio é uma variável de risco que não pode ser ignorada. Uma carteira inteiramente em reais está exposta à desvalorização cambial — o que significa que, em termos de poder de compra internacional, o retorno pode ser menor do que os números nominais sugerem.
Diversificação em ativos dolarizados — BDRs, ETFs internacionais, fundos cambiais — é uma forma de reduzir essa exposição. Não é uma aposta no dólar subir mais, é uma proteção contra o risco de o real continuar fraco por razões que nenhum modelo consegue prever com precisão.